Adriano Borges Costa, Adriano Dutra, Gustavo Theil e Júlio Mugnol
Data de publicação desta história Junho 2026
27 de Março de 2024
“Corredor da Avenida 23 Maio - sentido aeroporto. Um motociclista colidiu com a traseira de um caminhão, na Av. Moreira Guimarães, na altura da Av. Jamaris, por volta das 2h da manhã, quando as pistas estão livres. A vítima foi socorrida com vida, mas morreu no hospital. A CET aguarda a conclusão do laudo pericial.”
Fonte: G1 - 02/05/2024 - Clique aqui para ver a reportagem
Em São Paulo, esse tipo de episódio tem se tornado cada vez mais frequente: apenas entre 2023 e 2024, o número de mortes de motociclistas no trânsito aumentou cerca de 20%, passando de 403 para 483 óbitos — o equivalente a aproximadamente 1,3 morte por dia. Isso significa que, todos os dias, ao menos uma família perde alguém para a violência no trânsito.
A cena descrita foi retirada de uma reportagem encontrada no noticiário do G1, mas poderia ter saído de muitos outros telejornais brasileiros. Ela sintetiza uma crise que se repete diariamente nas grandes cidades: a vulnerabilidade crescente dos motociclistas no trânsito.
É a partir desse cenário que surge a Faixa Azul, uma sinalização viária criada para organizar a circulação de motocicletas entre as faixas de veículos em grandes avenidas. A proposta é tornar o deslocamento das motos mais previsível, reduzir conflitos com carros, ônibus e caminhões e, com isso, diminuir o número e a gravidade dos sinistros.
O estudo Avaliação do impacto da Faixa Azul nos sinistros de trânsito em São Paulo, desenvolvido no âmbito do Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper, analisa justamente se essa política pública de segurança viária produziu os efeitos esperados.
Distribuição dos deslocamentos diários, por meio de transporte principal, em São Paulo, incluindo todos os deslocamentos na Região Metropolitana que passam pela capital.
Fonte: Pesquisa Origem-Destino do Metrô de São Paulo; estudo "Avaliação do impacto da Faixa Azul nos sinistros de trânsito em São Paulo" — Centro de Estudos das Cidades / Insper, 2025.
Embora as motocicletas representem apenas 2,8% dos deslocamentos diários que passam por São Paulo, elas foram o segundo tipo de veículo mais frequentemente envolvido em sinistros entre 2022 e 2025, chegando a 39,7%. Neste mesmo período, 68% dos sinistros na cidade envolveram ao menos uma motocicleta. De janeiro de 2025 a setembro de 2025, período destacado pelo estudo, este valor chegou a quase 70%.
Ainda maior é a participação das motos na letalidade do trânsito da cidade: os motociclistas representaram 46,3% das mortes no trânsito entre 2022 e 2025. Em 2024, período destacado pelo estudo, este valor chegou a 48,4%.
O aumento no número de acidentes e mortes envolvendo motociclistas acompanha o crescimento acelerado do uso de motos nos últimos anos, especialmente durante a pandemia. A expansão dos aplicativos de entrega ampliou significativamente a demanda por entregadores e intensificou a circulação de motocicletas nas grandes cidades.
Nesse cenário, a Faixa Azul foi a resposta da Prefeitura a este problema de grande relevância. A intervenção busca reorganizar o espaço viário, reduzir conflitos entre motos e carros e tornar a circulação mais previsível em alguns dos corredores mais movimentados da cidade. Com o avanço da política e após algum tempo de sua implementação, um questionamento se fez necessário: a Faixa Azul contribuiu para a redução dos sinistros de trânsito envolvendo motociclistas?
Nota. No estudo original, os 5% dos deslocamentos consideram todas as viagens na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Os 70% consideram todos os sinistros que envolveram ao menos uma motocicleta — dentre os sinistros com informação de veículo disponível, no período 2015–2024. Os 50% das mortes são uma aproximação dos 48,8% de motociclistas entre os 960 óbitos em sinistros em 2024.

A Faixa Azul demarca uma faixa preferencial, mas não exclusiva e de uso facultativo, para motociclistas. Em São Paulo, ela costuma ser implantada entre as duas faixas mais à esquerda da via. Sinalização por meio de placas também acompanha a intervenção.
A vantagem da Faixa Azul seria que ela contribui para organizar o fluxo de motocicletas ao criar um espaço preferencial de circulação, reduzindo conflitos com carros, ônibus e caminhões. Isso ajuda a diminuir o “efeito de esmagamento” das motos entre veículos maiores, aumenta a previsibilidade no trânsito e reduz disputas bruscas por espaço.
Além disso, é uma solução relativamente rápida e barata de implementar, funcionando melhor em corredores com tráfego intenso, poucas interseções e fluxo mais contínuo.
O lado negativo é que a faixa dedicada pode incentivar motociclistas a trafegarem em velocidades mais altas, aumentando o risco de sinistros e a gravidade das lesões. A sensação de maior segurança pode levar a comportamentos mais arriscados.
Além disso, quando motos circulam fora da faixa, elas ficam mais vulneráveis, sobretudo em vias com muitas entradas e saídas, já que outros motoristas tendem a presumir que elas estão restritas à faixa dedicada.




Em uma cidade como São Paulo, os sinistros variam por muitos motivos: chuva, horário, volume de tráfego, fiscalização, velocidade, mudanças no comportamento dos motoristas, crescimento das entregas por aplicativo e até oscilações aleatórias de eventos raros, como mortes no trânsito.
Esse tipo de sinalização para faixa dedicada a motociclistas ainda não está previsto na regulamentação nacional de trânsito, então a Prefeitura de São Paulo recebeu autorização para implementar a Faixa Azul em caráter experimental.
A primeira implantação ocorreu em 25 de janeiro de 2022, na Avenida 23 de Maio.
Depois disso, a política foi sendo expandida para outros grandes corredores da cidade. O estudo registra que, ao fim de 2024, a Faixa Azul já acumulava mais de 200 quilômetros de extensão e estava presente em 46 vias diferentes. Em janeiro de 2025, a Prefeitura informou que a rede havia chegado a 212,2 quilômetros.
Pelo mapa do estudo, os trechos se concentram sobretudo em vias largas, rápidas e com papel metropolitano: corredores como 23 de Maio, Bandeirantes, Nações Unidas, Faria Lima, Estado, Jacu-Pêssego, Aricanduva, Salim Farah Maluf e Teotônio Vilela ajudam a desenhar essa geografia.
Em outras palavras: a Faixa Azul foi implantada onde o trânsito é mais veloz, mais intenso e mais complexo. É menos uma malha contínua e mais um conjunto de trechos implantados em eixos de tráfego pesado.
Por isso, o estudo buscou responder a uma pergunta mais difícil: o que teria acontecido nos mesmos corredores se a Faixa Azul não tivesse sido implantada?
Para construir essa resposta, os pesquisadores combinaram duas bases de dados. A primeira foi o Infosiga-SP, sistema estadual que reúne registros de sinistros de trânsito, com informações sobre data, horário, localização, gravidade e veículos envolvidos. A segunda foi o OpenStreetMap, usado para identificar características das vias, como número de faixas, limite de velocidade, presença de radares, interseções e entorno urbano.
O primeiro desafio foi fazer essas bases “conversarem”. Um sinistro aparece como um ponto no mapa; uma avenida aparece como uma sequência de segmentos. Além disso, nomes de vias podem estar escritos de formas diferentes. A Avenida das Nações Unidas, por exemplo, também pode aparecer como Marginal Pinheiros ou SP-015. Para resolver isso, o estudo fez um processo de pareamento: limpou e padronizou nomes, comparou a semelhança dos textos e cruzou cada ocorrência com os trechos de via mais próximos.
Depois, os pesquisadores identificaram exatamente quais trechos receberam Faixa Azul. Para isso, usaram divulgações oficiais da CET e fizeram checagens visuais em imagens do Google Street View, refinando os pontos de início e fim da sinalização. Esse detalhe é importante porque a Faixa Azul nem sempre ocupa uma avenida inteira: muitas vezes, ela aparece apenas em partes específicas de um corredor.
A partir do matching geográfico dos dados de sinistros e mortes no trânsito, com informações sobre as vias que receberam intervenções, foi possível gerar o gráfico que pode ser visto abaixo. Esta visualização mostra, em uma linha do tempo, quando ocorreram sinistros fatais em cada via entre janeiro de 2021 e abril de 2025, e quando esta recebeu o primeiro trecho de Faixa Azul. Não é possível inferir, apenas a partir dessa visualização, uma mudança no comportamento das mortes no trânsito quando vias recebem faixas exclusivas para motociclistas.
Linha do Tempo dos Óbitos por Via, antes e depois da Faixa Azul, janeiro de 2021 – março de 2025.
Fonte: Infosiga-SP; estudo "Avaliação do impacto da Faixa Azul nos sinistros de trânsito em São Paulo" — Centro de Estudos das Cidades / Insper, 2025.
Modo de transporte da vítima
Em seguida, o estudo comparou trechos que receberam Faixa Azul com trechos parecidos que ainda não tinham recebido — ou que nunca receberiam — a intervenção. Essa comparação é essencial. A pergunta não é apenas se os sinistros caíram em uma via com Faixa Azul. A pergunta é se eles caíram mais, menos ou de forma diferente do que em vias semelhantes sem Faixa Azul.
Para escolher bons pontos de comparação, os pesquisadores usaram características das vias: tipo de via, número de faixas, limite de velocidade, presença de radar, quantidade de interseções, pontos de interesse no entorno, extensão do trecho e histórico de sinistros antes da política. A ideia é evitar uma comparação injusta — por exemplo, comparar uma avenida expressa de alto fluxo com uma rua local de bairro.
O método central usado pelo estudo se chama Diferença-em-Diferenças. Apesar do nome técnico, a lógica é intuitiva: observar como os sinistros mudam ao longo do tempo nos trechos com Faixa Azul e comparar essa mudança com a evolução de trechos semelhantes sem a intervenção. Assim, o estudo tenta separar aquilo que é tendência geral da cidade daquilo que pode ser atribuído especificamente à Faixa Azul.
Depois de testar diferentes modelos, o resultado foi consistente: o estudo não encontrou evidências estatisticamente significativas de que a Faixa Azul tenha reduzido os sinistros de forma sistemática. Em algumas estimativas, o efeito aparece ligeiramente positivo; em outras, ligeiramente negativo. Mas, em geral, os intervalos de confiança cruzam o zero — ou seja, os resultados não permitem afirmar que a política tenha causado redução ou aumento dos sinistros.
Isso não significa que reorganizar o espaço viário seja irrelevante. Significa que, diante de um problema tão complexo, a resposta também precisa ser mais ampla. A própria pesquisa aponta que o efeito da Faixa Azul depende de fatores como velocidade, fiscalização, desenho da via, cruzamentos, volume de motos e características do entorno urbano.
Veja, a seguir, quais são os outros fatores apontados pela pesquisa que podem contribuir para a redução dos acidentes.



Fiscalizar comportamentos de risco e reduzir velocidades
A sinalização só funciona se vier acompanhada de fiscalização: excesso de velocidade, avanço de sinal, mudanças bruscas de faixa e uso irregular da Faixa Azul podem anular o efeito esperado da intervenção. E a velocidade é o ponto crítico — quanto maior ela é, menor o tempo de reação e mais grave o impacto, uma diferença decisiva para motociclistas. Por isso, reduzir limites, fiscalizar corredores críticos e usar o próprio desenho da via para induzir velocidades menores pode salvar vidas.
Melhorar o desenho físico das vias e tratar os pontos de conflito
Nem toda avenida responde da mesma forma à Faixa Azul: largura da pista, número de faixas, continuidade do traçado, velocidade permitida e quantidade de acessos precisam orientar onde a medida faz sentido — e onde ela pode precisar de ajustes. Atenção especial aos cruzamentos e pontos de conflito, já que muitos sinistros acontecem onde os fluxos se encontram (conversões, acessos, retornos, entradas de postos e aproximações de semáforos). Redesenhar esses trechos pode reduzir os conflitos entre motos, carros, ônibus, caminhões e pedestres.
Proteger motociclistas profissionais
Entregadores e outros motociclistas profissionais passam muitas horas em circulação e estão mais expostos ao risco. Reduzir acidentes também passa por melhorar condições de trabalho, criar pontos seguros de espera, diminuir a pressão por velocidade e incentivar práticas seguras por meio de modelos de remuneração que valorizem a condução responsável, em vez da rapidez a qualquer custo.
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